História de Zala - testemunho enviado para o processo da causa do Cardeal Van Thuân 

Um exemplo de perseverança na doença, com a ajuda do venerável Cardeal Van Thuân, contada pela esposa, Adélia Ramos.

Tenho 5 filhos, 56 anos e venho falar da nossa ligação, minha e da minha família, ao Cardeal Van Thuân.

No dia 2 de Abril de 2014, fui informada de que o estado de saúde do Zala, meu marido, que tinha sido submetido desde 2012 a duas cirurgias a um tumor na cabeça, se tinha agravado. Apesar dos tratamentos, o tumor tinha alastrado e já havia metástases. Enquanto das outras vezes, as complicações que surgiram pareciam ter solução terapêutica, desta vez avisaram-me que o que iria ser feito seria de carácter paliativo.

Foi um grande choque, mas não nos deixou desesperados. Estávamos nas mãos de Deus. Sempre tivemos essa consciência e nessa altura, mais que nunca. No entanto estávamos muito apreensivos.

Pedimos oração, procurámos os amigos e relançámo-nos num caminho de descoberta do que é que Deus nos pedia com esta história tão concreta que nos alterava todos os planos, todos os projectos, mas que no entanto nos entrava pela vida dentro de forma tão avassaladora.

Foi aí, num desses telefonemas que o P. Marco nos falou do Cardeal. Mandou-nos pagelas, falou-nos um pouco da sua vida, começámos a pedir a sua intercessão e rapidamente estendemos este pedido a todos os que nos eram próximos e que sabíamos que rezavam por nós e que por sua vez iam estendendo a outros amigos.

Começámos a ler tudo o que encontrávamos e que nos traziam sobre o Cardeal. Descobrimos a sua espiritualidade e fomo-nos apaixonando e percebendo como Deus nos fala em todas as situações. Fomos identificando na nossa realidade, aparentemente tão cheia de aflições, tantos sinais da bondade de Deus para connosco e que tanto nos ajudaram a descobrir um novo olhar. Um olhar que não nos fechava nem no tempo nem na dor: um olhar de esperança que nos dava uma confiança cada vez maior e nos enchia de alegria.

A relação do Zala com a doença ao princípio foi difícil. Se por um lado via nela um sinal de eleição de Nosso Senhor, por outro a fragilidade e a insegurança tornavam-no desconfiado, irritava-se mais facilmente e a tendência para se fechar era maior. Em casa tentávamos contrariar isso e trazê-lo de volta à normalidade do dia-a-dia e conseguiu ir reagindo com o regresso ao trabalho, com as solicitações dos filhos, enfim: com as exigências concretas da realidade duma família numerosa. Estávamos em 2012 (ano da primeira cirurgia) e assim fomos permanecendo até ao final de 2013 quando soubemos que ia ser necessária uma segunda intervenção. Nessa altura as coisas tornaram-se mais solenes. Percebemos que esta era a nossa circunstância, que já não encarávamos como passageira e que seria através dela que Deus nos iria mostrar a Sua Misericórdia. E aconteceu o que comecei por referir. A partir de Abril de 2014: "Páscoa de 2014", como o Zala tanto gostava de sublinhar, deu-se a transformação mais profunda e mais bonita das nossas vidas.

As orações de súplica pela sua cura através da intercessão do Cardeal Van Thuân começaram Domingo de Ramos, dia em que recebemos as pagelas. Lembro-me das vezes que me perguntava: "Tens noção do que estamos a pedir?" Reforçando a consciência que tinha de que só a cura o poderia "Salvar".

Viveu intensamente a Semana Santa, enquanto os sinais de perda de funções neurológicas começavam a fazer-se sentir. Sem se dar conta começou por perder o controlomotor da perna esquerda, o que o obrigou a ter que andar de bengala e sempre acompanhado por alguém. Pensei que isso o perturbasse muito, mas ficava perplexa com as respostas que dava. Insistia muito na grande liberdade que descobriu na doença e que era uma liberdade nova, uma liberdade diferente: "Senhor, eu não sirvo para nada mas sou feliz assim, porque Tu me queres assim!" Disse-me na quinta-feira Santa a caminho da missa crismal (Dia 17 de Abril/ aniversário do Cardeal). E foi à Via Sacra em cadeira de rodas quando nos anos anteriores era ele que costumava preparar a encenação da mesma sem mostrar a mínima nostalgia por tudo o que ia ficando para trás.

Por essa altura , tivemos também a Graça de nos ter sido oferecida uma ida a Roma à canonização dos Papas João XXIII e João Paulo II. Foi um entusiasmo muito grande. Levámos na bagagem para oferecer aos nossos amigos "o Peso do Tempo", Poema tirado do livro " Orações de Esperança" do Cardeal Van Thuân que o Zala com tanto amor nos leu. No dia seguinte, 28 de Abril, fomos a Santa Maria de La Scalla, onde está sepultado o Cardeal, rezar e confiar-lhe as nossas vidas, bem como á Virgem Maria. Ali renovámos a nossa consagração a Nossa Senhora e pedimos a cura, salvaguardando sempre que aceitaríamos a vontade de Deus para nós. Ao sairmos disse: "Pronto, já está! Agora já não é connosco!"

Voltámos para casa cheios de gratidão.

Fisicamente a situação ia piorando, mas nada nos tirava a imensa Alegria de vivermos numa comunhão profunda. Sentíamos à nossa volta, os filhos, os amigos, toda a família a constatar essa transformação tão misteriosa que nos confirmava que qualquer que fosse o desfecho, o caminho era por aqui.

A 24 de Junho foi hospitalizado. Ainda voltou a casa mas já não por muito tempo.

As dificuldades acentuam-se: fica quase sem defesas, as medicações começam a não fazer efeito e num desses dias disse-me que durante toda a vida Nosso Senhor lhe tinha dado muitas consolações e que agora lhas estava a tirar todas, mas também que era isso que ele Lhe tinha pedido. Perguntei o que queria dizer com isso e respondeu que pedia a Deus a confiança de se deixar cuidar: "Quero aprender a deixar que cuidem de mim como um mendigo"!

De facto foi uma escalada para a cruz em que deixou todas as seguranças. Foi entregando a sua autonomia e a sua resistência com uma docilidade no olhar que me fazia ver o próprio Jesus e que me enchia de Amor.

A 6 de Agosto recomeçámos uma novena ao Cardeal pela sua cura, extensiva a todos os nossos amigos. A ideia era acabar a novena a 15 de Agosto. Era ao mesmo tempo assinalar o dia da libertação do Cardeal e um último esforço de súplica perante uma situação que já fazia antever outro desfecho. Chego nessa manhã ao hospital e interiormente lembro-me de ter rezado que se fosse da vontade de Deus manifestar-Se no limite das suas forças para Sua maior Glória, pois continuaríamos a implorar o milagre. Mas se os Seus planos fossem outros que o entregava nas Suas mãos. E na madrugada do dia 7 de Agosto partiu.

O que nos aconteceu foi um grande Encontro. O que vivo hoje em casa com os meus filhos, nunca foi desespero nem revolta . Nunca fechámos a porta à vida; à maneira inteiríssima como vivemos todos os sofrimentos desta última fase. Tudo o que vivemos , vivemos na confiança e com uma paz que sabemos não vir de nós. Tenho a certeza que se o Senhor nos fez beber este cálice foi e é através dele que nos vai revelando o Seu Amor por nós. Foi-me dado entregar a Jesus o meu esposo muito amado e só consigo sentir quanta beleza vivo nesta dor.

Pode comunicar-nos as graças alcançadas aqui ou através do e-mail causa.cardinalvanthuan@humandevelopment.va.